
From: C.
To: R.
Subject: RE: sem assunto
Date: Wed, 21 May 2008 18:03:31 +0000
R.,
primeiro, dispenso as desculpas de que você tentou falar comigo:no fim de semana que eu estava super mal, tomando água de coco de colheirinha, vomitando plasil, você sabia bem o endereço e o telefone de onde eu estava. "Não CONSIGO falar", acho uma saída muito fácil e enviar um EMAIL que praticamente punha fim numa relação que me parecia muito intensa, me pareceram atitudes de uma covardia imensa, imensa, que eu não sabia que você era capaz. Afastar-se assim, por meio digital, por escrito, de uma pessoa que há poucos dias atrás você dizia amar tanto... Fiquei pensando no tamanho do lugar de afeto que sobrou pra mim que você tanto falou e eu tanto acreditei: tal lugar devia ser do tamanho de uma kitinete, que de tão pequeno que não coube nem ser solidário e nem o respeito com a pessoa que o ocupava. Por fim, o apoio que eu tanto precisava naquela hora, encontrei em pessoas diversas, algumas muito mais distantes que você. Por outro lado, foi bom perceber que meus amigos que eu andava reclamando que não existiam, na hora em que precisei muito, surgiram de tudo quanto é parte, me mostrando o tanto que fui injusta dizendo "estou sozinha, não tenho mais amigos aqui e blá, blá, blá..."
Passado o momento agudo, se você está mesmo interessado, fiquei quase boa (salvo ainda uma diarréia, às vezes) fui pra São Paulo ver meu orientador e foi ótimo, voltei com mais projetos do que quando eu fui.
Seu email era claro : dizia sobre afastamento e que "em breve" você TENTARIA me ligar, portanto me afastei, sem responder um email que pra mim era direto, conclusivo e que não pedia respostas ou contestação... Pra falar a verdade, nem esperei mesmo que você me ligasse, pois você disse apenas que TENTARIA. E, apesar de você escrever o contrário, achei sim que cabia naquele email um pedido de desculpas pela ausência nos dias doentes anteriores quando eu estava passando um mal do cão.
Mas, estar doente tem um lado bom: faz a gente pensar, pensar porque não pode fazer mais nada mesmo...E fiquei pensando sobre o que você dizia sobre diferenças que tinham surgido mesmo antes do episódio do fatídico vídeo. E não conseguia entender de jeito nenhum como em tão poucos dias uma pessoa pode passar de gestos que pareciam desvelar tanto amor para atitudes como esta, de nem ligar pra saber se a pessoa está bem, por conta de supostas diferenças que você diz que surgiram em dois ou três dias...Estava achando inacreditável, tipo estória de ficção.
Mas, agora eu entendi: falta de assunto em S. A. pra você seria falta de cumplicidade...(falta de intimidade que você diz, eu não vou nem considerar, pois acho que sempre teve muita intimidade sim, se penso no carinho sempre presente, do sexo tão bom como foi lá - porque acho que se não tem intimidade, não rolaria daquele jeito tão bacana...) Hoje, com sua mensagem, confirmei uma das impressões que tive enquanto pensava, pensava...Acho que, mesmo que você não saiba, você imagina ao seu lado uma pessoa, como você mesmo diz, "bafonística" o tempo inteiro, incomum, que tenha sempre tiradas engraçadas, que ocupe sempre um lugar de destaque numa mesa...Sinto te informar que não sou assim: sou divertida, tenho meus bas fonds, mas não sou assim o tempo inteiro, sou uma pessoa comum - tenho TPM, fico doente, fico cansada e não gosto de ser o centro das atenções todo o tempo. Tem alguns momentos que simplesmente olhar pra pessoa por quem eu estou perdidamente apaixonada me bastam e eu não entendo isso como falta de assunto e muito menos como falta de cumplicidade, porque não preciso de ter assunto todo minuto pra demonstrar que gosto de alguém ou me sentir próxima. Principalmente, depois de uma mudança tão grande, mudar de país e voltar, me dou o direito de estar mais reflexiva e sem assunto com você ou com qualquer pessoa. E, me desculpe, mesmo em uma situação normal, sem ter havido nenhuma mudança próxima, eu não me obrigo a ser divertida o tempo todo e nem espero que o outro seja. Pra falar a verdade, eu nem tinha percebido esta tal falta de cumplicidade e tinha achado tudo muito maravilhoso: dormir com você, acordar ao seu lado, tomar café,conversar, mesmo que não muito, decidir lugar das plantas, morrer de cansaço no fim do dia e ter o aconchego do seu colo ouvindo um rádio estranho no fundo do sonho... Cumplicidade pra mim é isto, é gostar de estar junto, de ser feliz juntos, mesmo que feliz apenas com as coisas pequenas que nem sempre rendem assunto ou risada ou, às vezes, pelo contrário, rendem silêncio...que pena que você não entende assim...
Mudando de assunto, realmente, amo Paris. Foi uma experiência muito bacana e isso eu não consigo esconder, por mais que eu evitasse o assunto pra não te deixar inseguro (o que, pra falar a verdade, me travou às vezes, porque você tornou a volta leve, leve, não tive vontade de voltar pra França...mas meus assuntos ainda eram de lá, e eu não queria ficar falando de lá pra não te deixar com esta insegurança e nem correr o risco como você falou, de intimidar seus amigos com estórias e estórias de viagem, correndo o risco de ainda ser pedante em meio à empolgação, então às vezes emudeci mesmo) Mas, Paris é uma cidade que eu não pensava mais em fazer uma opção entre viver lá e você. Muito pelo contrário: eu ficava às vezes fantasiando que a gente poderia envelhecer juntos e felizes lá como a tal bruxa disse :) , nunca voltar pra ficar lá sozinha, sem você. E, mesmo nesta cidade romântica, cheia de glamour, também não me envolvi com alguém que ocupasse o seu lugar, pois apesar de não ter nada combinado, sempre acreditei nas suas declarações de afeto e amor e também me sentia sua cúmplice, sua companheira, mesmo distante fisicamente e sabendo dos riscos desta distância. Voltei pra cá a fim de ficar pra sempre, acreditando que você realmente me esperava, como você disse, e sem querer saber o que houve durante a espera.
Mas, o azar resolveu que eu tinha que saber os "detalhes sórdidos" (que eu não queria saber) desta sua espera da maneira mais indelicada possível: o vídeo realmente me chocou. Volto a dizer, pois talvez eu não tenha sido clara: não tive a intenção de te invadir, acho terrível este tipo de atitude, mas alguém teve a infelicidade de nomear o arquivo do vídeo como "Bergman" - um diretor que eu adoro - e por este ACASO,quando eu estava procurando um filme qualquer para assistir, cliquei no vídeo, achando que eu iria assistir a um filme do saudoso diretor sueco. Quando então... ouço a sua voz, doce,chamando de "amore" uma outra pessoa e beijando esta outra pessoa....aí, tudo desabou e, realmente,aí sim você pode chamar de invasiva a atitude, mas corria amor nas minhas veias que não são de barata e, enfim, vi ainda o outro vídeo , ainda mil vezes pior ...
Doeu demais, mas ainda assim, quis te ouvir, saber de você o que representava hoje pra você esta pessoa. E ainda: acreditei em você e, pelo amor que eu lhe tinha, estava super disposta a passar uma borracha nisso, pois não gosto de guardar rancor e, quando eu decido mesmo superar alguma coisa, com o tempo eu nem lembro mais o que aconteceu. Foi o que eu tentei fazer e , de repente, me pareceu que houve uma inversão das coisas: se tinha alguém que poderia querer pensar se valia a pena continuar depois de ver o que viu e evitar um pouco o outro, esse alguém deveria ser eu e, na verdade, VOCÊ passou a fazer isso. De repente, o que era uma atitude normal, ligar para você , saber o que você iria fazer num determinado dia, passou a ser difícil, pois você começou a fazer com que eu me sentisse como se eu estivesse forçando a barra... Poxa, pera lá, acho muito injusto e às avessas ter que pensar duas vezes se eu posso ou não ligar pro meu próprio namorado ( e se ele vai atender..), sendo que era eu quem estava tentando digerir e compreender uma situação estranha, e ainda por cima eu estava voltando de um hospital e precisava de um mínimo de apoio nessa hora.
Paro por aqui, porque talvez, mais uma vez, eu esteja me expondo demais, me entregando demais a você, colocando aqui o que eu senti. Eu queria conseguir ser fria o suficiente pra dizer um seco "ok, até breve" ou um cínico, "você tem razão, a gente é diferente mesmo, você não tem nada a ver comigo, seja feliz e passe bem", mas não consigo ser menos passional (e piegas) do que sou e iria me fazer muito mal se eu não dissesse o que estava no coração.
Talvez o tempo da delicadeza chegue um dia, mas agora meu sentimento em relação a você, não é de mal estar, é de decepção. E profunda.
C.
Ambiente sonoro do post : Let it die – Feist Copyrights Polydor 2005.
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