
Nem sempre se conhece alguém nesses momentos de espera। Desta vez, a pessoa mais próxima de mim só sabia dormir…Me ocupei então de observar o cenário, registrar impressões…
Rolos no campo de trigo como rocamboles de doce de leite.
Café da manhã francês.
Sono (que o acaso quis que fosse em 1ª classe).
Passagem pela Bélgica : lembranças remotas de um outro verão europeu, outras pessoas… a minha vida também era outra (e eu nem sabia então que estava tão prestes a mudar)
Até as cidades parecem outras….
Antuérpia era tão grande assim ?
Esta é a mesma estação de onde um dia eu saí para um dia de chocolates, massas e bicicletas em Bruges ? Será mesmo ?
E esses girassóis gigantes ? eles também estavam aqui ?
Não eram campos de tulipas que me encantaram da outra vez ?
Por que tentar lembrar de um tempo que nem era mais tão feliz e que ficou tão para trás como Paris também está agora ?
Todas as trens-moças falam comigo numa língua esquisita. Tenho por um acaso cara de holandesa ? (talvez, já me perguntaram algumas vezes se eu era de lá…) Francês, uma língua estranha (holandês ou flamenco ?) e o ronco do moço gordo ao meu lado se misturam e ficam ainda mais altos quando o trem diminui e parece deslizar nos trilhos…
Melhor a fazer é voltar a prestar a atenção na paisagem :
Campos de milho ( ?!).
Plantações de pombas brancas em um terreno de terras escuras.
Vaquinhas malhadas como na propaganda de leite.
Pequenas hortas com folhas estranhas.
Casas cujos telhados parecem freiras de chapéu.
Estamos em Rosendaal.
(vou colocar uma rolha no moço que ronca !)
Vagões de trens coloridamente pichados.
Casinhas afogadas em mais campos de milho.
Mais plantações de vaquinhas de propaganda.
Ovelhas pra variar e mais uma estação que passa correndo.
(não consigo ler o nome…)
Onde estão os campos de tulipas vermelhas ?
Ficaram apenas no coração ?
Mais casas-freiras.
Gostaria de aprender a pintar : seria mias legal do que escrever imagens.
Moinhos brancos.
E isso ?
é o mar ?
Parece tanto a ponte Rio-Niterói…
As placas têm sopas de letrinhas.
Como conseguem colocar tanta consoante numa palavra só ??
Mais casas-freira, azuis, escuras, reclusas, isoladas nos bosques..
Dordretch : já estamos na Holanda ? Me faltam mapas para saber…
Sinto frio, sinto saudade.
Sinto falta de alguém para compartilhar as sensações.
Alguém que não seja um velho diário de papel.
Posso resumir tudo numa única palavra: solidão,
é o que eu sinto.
Sono.
Túnel.
(bem conveniente para um cochilo)
Meu telefone toca :
Ninguém. ☹ Só uma mensagem da operadora de celular…
Mas, de verdade mesmo, ninguém…
Rotterdam.
Estação moderna,
cheia de círculos e cores e túneis para dormir.
Uma mesquita moderna.
Torres finas, altas e verdes.
Plantações de caixas pretas.
E agora ?
Que cidade é esta ? Que formas são essas ?
Mais um moinho.
Campos multicor.
Campos de flor.
Campos de lavanda.
Amsterdan.
Cheiro de marihuana no ar.
Cidade moderna.
Casa de Van Gogh.
Mulheres na vitrine.
Cidade forte.
Forte a banalização do sexo.
Forte a descriminalização da droga.
Fortes as marcas da guerra.
Fortes lembranças das leituras de adolescente
ao entrar na casa de Anne Frank.
Forte e interessante esta cidade cheia de canais, casas tortas e sex-shops como lojas de souvenirs…
Quero voltar.
Mas não quero voltar sozinha.
Quero me perder aqui.
Mas na companhia de alguém.
Para que seja ainda mais divertido do que já é.
(estou cuidando do ambiente sonoro deste post, enquanto isso deixo que a imaginação de quem me lê trabalhe com o silêncio…)
