segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Outras viagens de trem...


Nem sempre se conhece alguém nesses momentos de espera। Desta vez, a pessoa mais próxima de mim só sabia dormir…Me ocupei então de observar o cenário, registrar impressões…

Rolos no campo de trigo como rocamboles de doce de leite.
Café da manhã francês.
Sono (que o acaso quis que fosse em 1ª classe).
Passagem pela Bélgica : lembranças remotas de um outro verão europeu, outras pessoas… a minha vida também era outra (e eu nem sabia então que estava tão prestes a mudar)
Até as cidades parecem outras….
Antuérpia era tão grande assim ?
Esta é a mesma estação de onde um dia eu saí para um dia de chocolates, massas e bicicletas em Bruges ? Será mesmo ?

E esses girassóis gigantes ? eles também estavam aqui ?
Não eram campos de tulipas que me encantaram da outra vez ?

Por que tentar lembrar de um tempo que nem era mais tão feliz e que ficou tão para trás como Paris também está agora ?

Todas as trens-moças falam comigo numa língua esquisita. Tenho por um acaso cara de holandesa ? (talvez, já me perguntaram algumas vezes se eu era de lá…) Francês, uma língua estranha (holandês ou flamenco ?) e o ronco do moço gordo ao meu lado se misturam e ficam ainda mais altos quando o trem diminui e parece deslizar nos trilhos…

Melhor a fazer é voltar a prestar a atenção na paisagem :
Campos de milho ( ?!).
Plantações de pombas brancas em um terreno de terras escuras.
Vaquinhas malhadas como na propaganda de leite.
Pequenas hortas com folhas estranhas.
Casas cujos telhados parecem freiras de chapéu.
Estamos em Rosendaal.
(vou colocar uma rolha no moço que ronca !)
Vagões de trens coloridamente pichados.
Casinhas afogadas em mais campos de milho.

Mais plantações de vaquinhas de propaganda.
Ovelhas pra variar e mais uma estação que passa correndo.
(não consigo ler o nome…)
Onde estão os campos de tulipas vermelhas ?
Ficaram apenas no coração ?
Mais casas-freiras.
Gostaria de aprender a pintar : seria mias legal do que escrever imagens.
Moinhos brancos.
E isso ?
é o mar ?
Parece tanto a ponte Rio-Niterói…
As placas têm sopas de letrinhas.
Como conseguem colocar tanta consoante numa palavra só ??
Mais casas-freira, azuis, escuras, reclusas, isoladas nos bosques..
Dordretch : já estamos na Holanda ? Me faltam mapas para saber…

Sinto frio, sinto saudade.
Sinto falta de alguém para compartilhar as sensações.
Alguém que não seja um velho diário de papel.
Posso resumir tudo numa única palavra: solidão,
é o que eu sinto.

Sono.
Túnel.
(bem conveniente para um cochilo)
Meu telefone toca :
Ninguém. ☹ Só uma mensagem da operadora de celular…
Mas, de verdade mesmo, ninguém…

Rotterdam.
Estação moderna,
cheia de círculos e cores e túneis para dormir.
Uma mesquita moderna.
Torres finas, altas e verdes.

Plantações de caixas pretas.
E agora ?
Que cidade é esta ? Que formas são essas ?
Mais um moinho.
Campos multicor.
Campos de flor.
Campos de lavanda.

Amsterdan.
Cheiro de marihuana no ar.
Cidade moderna.
Casa de Van Gogh.
Mulheres na vitrine.
Cidade forte.
Forte a banalização do sexo.
Forte a descriminalização da droga.
Fortes as marcas da guerra.
Fortes lembranças das leituras de adolescente
ao entrar na casa de Anne Frank.
Forte e interessante esta cidade cheia de canais, casas tortas e sex-shops como lojas de souvenirs…
Quero voltar.
Mas não quero voltar sozinha.
Quero me perder aqui.
Mas na companhia de alguém.
Para que seja ainda mais divertido do que já é.

(estou cuidando do ambiente sonoro deste post, enquanto isso deixo que a imaginação de quem me lê trabalhe com o silêncio…)

sábado, 25 de outubro de 2008

Antes do amanhecer (ou Encontros e despedidas- parte 1)

Esta estória poderia acontecer em qualquer lugar do mundo real ou dos filmes. Qualquer lugar que tenha trens , ônibus ou aviões. Qualquer lugar que durante um espaço de tempo você convive com algumas pessoas que nunca viu. Poderia até ser em uma fila de banco ou na sala de espera do dentista. Enfim…a falta de assunto, a espera aliadas ao acaso, podem te levar a conhecer pessoas diferentes que passam e que, por algumas vezes, ficam mais tempo que a gente esperava…

Comigo aconteceu assim: estava eu viajando sozinha por terras peruanas, sem pensar em amores, sem procurar ninguém, sem nenhuma inspiração para viver qualquer tipo de aventura.Porém, o acaso nos traz algumas surpresas… Depois de passar por cidades que não fazem parte da rota turística comum (como Puno, que, fora as ilhas flutuantes do Titicaca, mais parece uma João Monlevade ou uma Manhuaçu peruana) me rendi a um dos pontos mais procurados na América Latina : Machu Picchu. E assim, sem muitas expectativas nem mesmo em relação à cultuada cidade inca, embarquei no trem.

No balanço do trem, rodeada por um cenário maravilhoso, conheci R. : um moço polonês ultra mega simpático e lindo. E assim embarcamos numa conversa animada até Machu Picchu. Combinamos então de fugir do local programado por todos para almoçar e descobrimos um restaurante muito mais interessante e vazio no vilarejo onde se pega o trem de volta, onde também o assunto não acabava....

E foi nesse trem da volta que aconteceu o esperado desde a ida: beijos calorosos, cinematográficos. Na chegada em Cusco, com o coração dividido pela alegria do encontro e a tristeza da despedida que sabíamos ser definitiva (afinal, a Polônia não é logo ali…), embarquei no ônibus de volta para La Paz, com telefones e endereço da Polônia e a promessa de R. de me ligar.

Amores de trem são deliciosos, mas são casos passageiros, são feitos de encontros, mas principalmente de despedidas. Só rendem alguma coisa nos filmes água com açúcar de Hollywood. Era o que eu pensava na viagem de volta. Mas R. me provou que, felizmente, eu poderia estar enganada… (continua em outro post)

Arquivo abaixo: ambiente sonoro sugerido : Tam-tam Poema de Aimé Césaire - Ed। Gallimard Música, arranjo e vozes: Fréderic Pagés

sexta-feira, 10 de outubro de 2008